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30
abr
2008

O que você faz quando chega em casa? Pense bem. Talvez você tenha sido tomado por uma nova mania que assola muitos de nós, trabalhadores que desenvolvem uma relação fraternal com seu computador, diante de tantas horas trabalhando juntos diariamente: a tecladomania. Dizem que, após alguns anos de contato com um computador, algo diferente acontece em nosso sistema nervoso. As terminações sensoriais de nossos dedos passam a ter uma relação tão íntima com o teclado, incapaz de ser rompida quando chegamos em casa. Por isso, ao abrir a porta de nosso lar, a primeira reação é uma leve coçada nos dedos.

Logo estamos novamente na frente do computador, seja para o que for. O importante é acabar com o desejo de digitar, seja no MSN, navegando na internet ou fazendo serviço extra.

Tudo bem, vá lá. Se conseguirmos lidar com nossas esposas gritando: “Amooooor, vem jantar!”, uma barreira já é vencida. Mas outra delas, sem dúvida, pode causar grandes danos a longo prazo e é bem mais difícil de superar: o aparecimento de doenças osteo-miotendíneas, como a LER.

A grande utilização de nossas articulações, especialmente a dos dedos, apesar de seu pequeno tamanho, se não for amparada por cuidados especiais, que envolvem desde a estruturação ergonômica até a realização de pequenos exercícios que fazem grande diferença para a prevenção de doenças ocupacionais (chamadas assim as doenças relacionadas ao local de trabalho).

Apresentarei aqui um pequeno texto acadêmico com informações referentes às doenças ocupacionais e sua natureza, bem como uma apresentação de uma das principais formas de prevenção deste mal: a Ginástica Laboral

O aparecimento das doenças ocupacionais

Após a primeira Revolução Industrial, ocorrida em meados do séc. XVIII, o mundo todo sofreu inúmeras modificações. Movidos por um grande mercado consumidor em expansão, os produtores viram-se obrigados a abandonar seus métodos tradicionais de produção industrial e arriscar seu capital em novos e revolucionários métodos, capazes de ampliar, em proporções nunca imaginadas, sua produção (PEDRO, 1985, p.124). As mudanças trazidas pelo avanço tecnológico ocorrido nesta fase foram sensivelmente sentidas e se estendem até nossos dias. Os antigos artesãos, habituados a controlar o seu próprio ritmo de trabalho, agora tinham que se submeter à disciplina da fábrica (ARRUDA, 1988, p.106), muito mais rígido, com claro enfoque na produção.

1 Graduando do curso de Educação Física da Universidade Estadual de Londrina. Publica trabalhos em congressos e periódicos nacionais e internacionais. Contato: fabriziopsico@yahoo.com.br.

Rapidamente, visando alcançar resultados mais expressivos em termos numéricos, os proprietários das empresas elevaram suas exigências em relação ao trabalhador, aumentando o ritmo de trabalho, intensificando a pressão, o nível de exigência quanto aos resultados (MENDES, 2000, p.1) e aumentando a jornada de trabalho.

Conseqüentemente, com os novos objetivos traçados pela elite burguesa, remetendo diretamente ao crescimento do capital e ao rendimento, a manutenção do corpo foi sendo colocada em segundo plano. Porém, naturalmente e como resposta a um enfoque menos humano e mais mecanicista em relação ao trabalho, o ônus causado pela despreocupação com o corpo começou a aparecer. Para atender às exigências da empresa, o trabalhador, por muitas vezes, era como que obrigado a sacrificar seu corpo em busca de um bem maior. O uso inadequado do corpo, através de posturas indevidas, da manutenção da posição sentada ou em pé por longo período, da falta de cuidado no ajuste do ambiente de trabalho, fez com que surgissem problemas advindos do trabalho. Sintomas patológicos foram sendo detectados com crescente freqüência, relacionados ao trabalho.

Doenças Trabalhistas e a Legislação Brasileira

Desta forma, as doenças relacionadas ao ambiente de trabalho tornaram-se mais freqüentes e a preocupação com elas foi cada vez mais acentuada. Inclusive, por sua grande incidência em trabalhadores, foram incluídas também na legislação brasileira. Segundo a Legislação Previdenciária, na Lei nº 8213/91, art.20º, doença trabalhista é “a adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente”. (FONTOURA; SABATOVSKI, 1997, p.59).

No entanto, existem ainda grandes lacunas quanto às formas de lidar com este problema, sendo que as leis ainda parecem, em muitas vezes, omissas ou incompletas em relação ao assunto (LIMA, 2002, p.66). A relação da doença com o trabalho é mais claramente discriminada pelo Ministério da Previdência Social na Lei n.10683, de 28.05.2003.

A doença do trabalho foi relacionada com o termo “doença ocupacional” pela Norma Regulamentadora n.4, item 4.12, da legislação trabalhista, porém, sem defini-lo. Em termos práticos, utiliza-se “doença ocupacional” como sinônimo para a doença do trabalho (GOMES, 2002, p.61).

Programas de Promoção da Saúde

A grande preocupação com as doenças ocupacionais está fortemente ligada à sua maior e crescente incidência. No estado de São Paulo, a Previdência Social registrou 6.382 casos em 1987 e 20.646 em 1995 (IRIE, 2003, p.35). Ainda que tenha havido problemas para mensurar o número de casos em 1987, tornando o crescimento dos índices questionável, o índice alcançado em 1995 é altamente alarmante. Além do mais, segundo dados da Previdência Social (BRASIL, 2002), o número de casos de doenças ocupacionais de 1995 se mantém semelhante atualmente, com o índice de 2002 sendo de 20.886 trabalhadores. Dessa forma, um dos questionamentos mais pertinentes é sobre a forma de prevenção destas doenças, que é um desafio para empresas, especialmente em vista das planilhas de custo tornarem-se cada vez maior, infladas pelo tratamento destas doenças.

Proporcionalmente às doenças do trabalho, emergem também os custos com afastamentos de funcionários por problemas de saúde. Em vista disso, surgiram os Programas de Promoção da Saúde, propondo acrescentar ao trabalho atividades que diminuíssem as doenças ocupacionais, geralmente, munidas de exercícios físicos, alterações ergonômicas (vide item 2.5) ou dicas para o bem estar, por exemplo. Shepard (1999) indica que estes “são vistos como um caminho para ajudar a manter os trabalhadores saudáveis e, necessariamente, diminuir os custos com a saúde dos mesmos”.

Diante da atuação desses programas, mudanças começaram a ocorrer dentro das empresas. Ainda que os estudos desta área sejam recentes, apontam resultados interessantes, como os apresentados pelo Movimento Esportes Qualidade de Vida Ltda, empresa que trabalha com a implantação e manutenção de programas de promoção da saúde.

Ginástica Laboral

Existem várias formas de atuação dentro de um programa de promoção da saúde aplicado em empresas, que adotam como ferramentas a favor da qualidade de vida programas de treinamento em equipe, ergonomia e práticas de atividade física dentro do ambiente de trabalho, condicionamento físico em academias internas, massagens rápidas, entre outras.

Uma forma específica de atividade física tem se consolidado, nos últimos anos, como um meio altamente eficaz para o bem estar dos funcionários de uma empresa: a ginástica laboral (GL). Ainda que pareça uma atividade nova no mundo, tem registros de implantação no Japão já em 1928. Ainda aparecem outros registros da ginástica de pausa para operários na Polônia, na Holanda, na Rússia, na Bulgária, na Alemanha Oriental e em outros países.

Esta modalidade de ginástica também pode ser denominada de ginástica laboral compensatória, ginástica do trabalho ou ginástica de pausa e caracteriza-se por ser aplicada dentro do ambiente de trabalho (MENDES, 2000, p.30), visando a melhoria da saúde do trabalhador, o aumento do desempenho profissional, a redução de custos com despesas médicas e absenteísmo (JIMENES, 2002, p.72), é leve e de curta duração, visa prevenir doenças originadas por traumas cumulativos, prevenir a fadiga muscular, corrigir vícios posturais. Além do mais, de forma indireta, facilita a promoção do bem-estar do funcionário, à medida que este sente-se cada vez menos indisposto fisicamente para o trabalho. Segundo Martins e Duarte (2000, p.9), a GL também pretende aumentar a disposição do funcionário ao iniciar e retornar ao serviço e promover maior integração no ambiente de trabalho.

A ginástica laboral é dividida segundo dois critérios: o momento em que o exercício é realizado ou o objetivo por que é realizado. Segundo o momento em que é ela feita, pode ser classificada como:

a) preparatória: realizada antes do início do expediente, logo após o funcionário ter “batido o cartão”, durando cerca de 15 minutos;

b) compensatória: aquela aplicada ao trabalhador no meio do expediente. Popularmente e até no meio acadêmico, a ginástica laboral compensatória é conhecida como ginástica de pausa, visto que as empresas que trabalham com a GL compensatória geralmente aplicam uma pausa ativa após 3 ou 4 horas do
início do serviço para a realização dos exercícios;

c) Relaxante: a realizada ao final do expediente, normalmente iniciando 10 a 15 minutos antes do final do expediente. A classificação através dos objetivos ainda encontra algumas variações na literatura, mas, de forma geral, está dividida em: corretiva (visando equilibrar o antagonismo muscular), compensatória (prevenção na fixação de vícios posturais), de conservação 

LER/DORT

A ginástica laboral, segundo seus objetivos, tem vários campos de atuação no homem. Um deles é a prevenção, especialmente de lesões no sistema músculo-esqueleticotendíneo. É importante ressaltar o caráter preventivo, visto que não é de competência da GL trabalhar com patologias instaladas e graves, no entanto, sendo de grande valia na prevenção de doenças ocupacionais, especialmente a LER.

LER é uma abreviação de lesão por esforço repetitivo, caracterizada pelo comprometimento, temporário ou permanente, de estruturas ósseas, musculares, tendíneas, nervosas ou do tecido conjuntivo.

O termo LER, apesar de ainda ser extremamente empregado, não é o correto, segundo a Previdência Social Brasileira. O termo definido como correto é “DORT”, vinda da tradução de Work Related Musculoskeletal Disorders: Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho.

Porém, segundo Przysciezny (2000), tratar a LER como um distúrbio osteomuscular não é o procedimento adequado. Segundo ele, o termo “ainda não é satisfatório, pois, as afecções ósseas e ocupacionais são quase todas exclusivas dos acidentes de trabalho” e, além do mais, o termo também exclui os distúrbios ligamentares.

As LER/DORTs são causadas pela utilização biomecanicamente incorreta dos membros, propiciadas pela mecanização e organização do trabalho e pela fragmentação e repetição das tarefas (PRYSIEZNY, 2002) e atenuadas pelo trabalho, visto que o ser humano nasceu para movimentos globais e as condições de trabalho atuais, com alto grau de repetição e monotonia, limitam a natureza humana (MENDES, 2000, p.30).

A LER/DORT e os digitadores

Freqüentemente, vemos os DORT surgirem em lugares específicos, especialmente nos membros superiores. Irie (2003) fez um estudo acerca das lesões por esforços repetitivos em soldadores de indústrias e encontrou maior incidência nos membros superiores (ombro, cotovelo, punho, mão) e coluna. A concentração nesta parte do corpo faz com que os maiores afetados por esta doença sejam, frequentemente, os que se ocupam de digitação e de serviços de telefonista.

No cenário mundial, vemos relatos como os realizados em 1918, na Suíça, em que os datilógrafos, os mecanógrafos e as telefonistas apresentavam sintomas muito semelhantes aos telegrafistas: sinais de sofrimento relacionados com suas atividades laborais. É nesta época que começam a aparecer as primeiras descrições de casos patológicos e as definições mais formais de doenças.

O fenômeno doenças ocupacionais começou a alcançar destaque no Brasil na década de 1980, quando começam a serem descritos os primeiros casos de DORT, e notados em digitadores (PRZYSIEZNY, 2000). Martins e Duarte (2000), afirmam que os funcionários que trabalham diante de microcomputadores parecem apresentar mais queixas físicas relacionadas a sua ocupação, por terem uma exigência maior de esforços repetitivos.

As autoras ainda relatam que os digitadores foram os primeiros trabalhadores a fazerem parte do grupo de risco do desenvolvimento do DORT, pela repetitividade dos movimentos, falta de adequações posturais e teclados excessivamente duros (MARTINS; DUARTE,2000).

Ergonomia

Caminhando paralelamente à ginástica laboral, ansiando a prevenção das doenças ocupacionais (incluindo LER/DORT) está a ergonomia. A ergonomia é o estudo da adaptação do trabalho, incluindo o ambiente de trabalho, ao homem (IIDA, 2002, p. 1). É o estudo do relacionamento entre o homem e o seu ambiente de trabalho, equipamento e ambiente e particularmente a influência dos conceitos de anatomia, fisiologia e até psicologia na resolução dos problemas advindos deste relacionamento (RODRIGUEZAÑEZ,2001, p.102).

Os objetivos práticos da ergonomia estão ligados com a segurança, satisfação e o bem-estar dos trabalhadores no seu relacionamento com seus sistemas de produção (GONÇALVES, 1995, p.20).

Como resultado de boas aplicações ergonômicas, estará a eficiência e o resultado, sem danos maiores ao físico do indivíduo. É importante que o trabalho da ginástica laboral seja feito em pararelo com alterações ergonômicas, para que os benefícios trazidos por aquela não sejam anulados por esta.

Considerações Finais

A partir das informações apresentadas, depreende-se que um planejamento de promoção da saúde é uma ferramenta essencial para garantir o bem-estar dos trabalhadores, proporcionando um ambiente mais agradável de trabalho e garantindo a produtividade da empresa. Além do mais, os gastos dispensados com doenças ocupacionais exigem maior cautela, em vista de acometerem um número significativo de trabalhadores. A Ginástica laboral, portanto, é instrumento extremamente válido para diminuir os custos da empresa com doenças ocupacionais e deve ser realizada paralelamente a um trabalho de correção ergonômica do ambiente de trabalho.

Autor: Fabrizio Zandonadi Catenassi

REFERÊNCIAS

ARRUDA, José Jobson de. História Moderna e Contemporânea. 21.ed. São Paulo: Ática, 1988.
BRASIL. Ministério da Previdência Social. Quantidade de acidentes de trabalho registrados, por motivo, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). [Tabela]. Disponível em: . Acesso em: 22 nov. 2003.
FONTOURA, Iara P.; SABATOVSKI, Emílio. Legislação Previdenciária. Curitiba: Juruá, 1997.
GOMES, Arlindo. Doença profissional, do trabalho ou ocupacional? Revista CIPA, São Paulo, n.271, p.60-62, 2002.
GONÇALVES, Cristina Faria Fidelis. Ergonomia e qualidade do serviço bancário: uma metodologia de avaliação. Florianópolis, 1995. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção). Universidade Federal de Santa Catarina.
GUEDES, Dartagnan Pinto; GUEDES, Joana Elisabete Pinto. Exercício Físico na Promoção da Saúde. Londrina: MidioGraf, 1995.
IIDA, Itiro. Ergonomia: Projeto e Produção. 8.ed. Edgard Blücher: Sâo Paulo, 2002.
IRIE, Maria Regina. Prevenção de LER/DORT em soldadores na indústria da montagem. Revista CIPA, São Paulo, n.283, p.26-37, 2003.
JIMENEZ, Patrícia. Bem-estar do trabalhador traz resultados surpreendentes. Revista CIPA, São Paulo, n.271, p.70-81, 2002.
LIMA, Cristiane Praça. Comissão do Trabalho vai debater política de prevenção das Lesões por Esforços Repetitivos (LER). Revista CIPA, São Paulo, n.271, p.66, 2002.
MARTINS, Caroline O.; DUARTE, Maria F. S. Efeitos da ginástica laboral em servidores da Reitoria da UFSC. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, v.8, n.4, p.7-13, set. 2000.
MENDES, Ricardo Alves. Ginástica Laboral (GL): implantação e benefícios nas indústrias da cidade industrial de Curitiba (CIC). Curitiba, 2000. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) – Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná.
PEDRO, Antônio. História Moderna e Contemporânea. São Paulo: FTD, 1985.
PRZYSIEZNY, Wilson L. Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho: um enfoque ergonômico. Ensaios de Ergonomia, Florianópolis, jun. 2000. Disponível em: . Acesso em: 5 nov. 2003.
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